Raia
Eu sepulto agora
Neste exato instante
E para sempre
Todos os meus abalos sísmicos
Que não deram em nada
Além de fendas sem luz
E buscas sem feitos.
Eu sepulto minha infância ferida
Minha tristeza infinda
A adolescência debochada
Interrompida
Voluptuosa
E despida.
Sepulto minha proximidade com o nada
A perplexidade aumentada
E tudo que se desfez.
Sepulto todas as censuras
E preconceitos
Todos os medos
A invocação do triste
Todos os vícios longos e plenos
E a falta de nitidez
Convoco para esse funeral
Minha pureza roubada
A incubação desperta
A floração mais rica
A autenticidade confessa
E a esperança que fica.
Eu sepulto meus ciclos descontinuados
Meus sonhos obstruídos
Meus afetos corrompidos
E tudo que se perdeu.
Expurgo, rastreio
Desmancho emboscadas
Bocas caladas
E todos os freios.
Me integro
Me reinicio
E liberto
Aquela que não sou eu.
(Wanda Alves)
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